Ilimitadas dimensões do pensamento

Se alguém lhe perguntasse qual a verdadeira dimensão dos seus pensamentos, a sua primeira reação seria pensar um pouco. A gente foi colocada no mundo sem a sua própria permissão, sem que houvesse qualquer consulta e eis que estamos aqui, já um longo tempo.

Todos os seus andares estiveram acompanhados por incentivos e impulsos, dos seus pais, avôs, irmãs, tias e aquelas pessoas que foram surgindo no seu dia-a-dia. Fomos captando as experiências, vivendo as mais diversas situações, dificuldades ou alegrias, aprendizados, dores alternadas, feridas que foram cicatrizando na mente ou no corpo.

Sou, sim, um vivente e mesmo um sobrevivente. Graças aos tempos de brincadeiras entre primos e amigos, entre colegas de grupo escolar, ginásio, anos em Seminário dos vicentinos, passei suores para ultrapassar as próprias barreiras. Ser orador da turma de ginasianos do Pedro Macedo, no Novo Mundo, foi um sufoco, pois a vergonha de falar em público era latente e sofrida.

Minha vivência sempre foi instigada por novidades. Idealizava coisas do arco da velha, querendo imitar os mais experientes. Na ferraria do meu pai, nos Galarda, aqui perto da chácara onde fico a maior parte do tempo, quis bater num ferro em brasa, na bigorna, e eis que me escapa e toca minha canela. Tenho sinal até hoje.

Fiz raias (pipas) e as vendia ali nas redondezas da rua Morretes, em Curitiba. As bidês eram as mais charmosas. Carrinhos com rodas de madeira, aos montes. Encilhei bodes na Serrinha, Contenda, imitando os mais velhos que arrastavam toras do meio do mato. Fiz terços (rosários) quando estava no Seminário, fazendo um dinheirinho. Ou seja, incursionei nos trabalhos manuais.

Lia muito, principalmente obras clássicas de autores brasileiros e estrangeiros. Lusíadas, cheguei na metade, pois as palavras tinham que ser esclarecidas nos dicionários. Estes, por sinal, eram minhas ferramentas de estudos. Até quando o Pe. José Damek pedia uma redação, costumava fazer com palavras simples e, depois, uma a uma era colocada com definições outras, melhores.

Nunca gostei de fazer o que já fiz ontem ou no passado. Imaginem meu desespero em me formar em técnica de contabilidade e, com perto de vinte clientes, ter que preencher diariamente os livros caixa, razão, etc.! Era desesperador, pois tudo se repetia, linha por linha. Em menos de três meses, transferi, aliviadíssimo, as escritas para meu cunhado contador Romualdo Zelak.

O gosto por música clássica era compartilhado no quartinho de minha casa na Rua Pará com Paranaguá, com meu primo de parte maternal José Rendak. Dividíamos o espaço, pois ele morava conosco enquanto estudava e trabalhava na empresa Pátria Seguros, depois absorvida pelo Bradesco. Cheguei a comprar, no nome dele, pois eu era de menor, um toca discos estéreo na loja A Musical, que se localizava na esquina da Rua Muricy com XV de Novembro. Dez prestações. Está comigo até hoje e até as coleções de LPs que curtíamos muito.

Sim, se ainda estamos aqui vivendo, nada melhor que alinhavar um pouco das nossas ilimitadas dimensões do pensamento. E lembranças boas. Estar aqui, mesmo sem nossa decisão, é um divino privilégio.

  1. Reminiscências…Oh! Saudosismo…Tem muito a ver com Camilo de Abreu…
    Surek com veia literária aflorando.
    Parabéns!

  2. Sergio Levy disse:

    Uma experiência que fundamenta a base da personalidade para habilitar o senso de cidadania!
    Parabéns! Sinto-me prestigiado por seu companheiro e amigo no Rotary!
    Abraços!

Responda