Fiquei com a tia Helena e primos no sábado e até meio da tarde de domingo, revivendo muitos fatos com nossa família. Não sabia realmente os motivos porque meu pai Francisco somente se comunicava através de cartas escritas pela minha mãe Anna, me parecendo – soube disso nessa visita – que sua vinda ao Brasil não foi lá muito animada. Recebi a visita de noite de um primo dele, do qual não lembro nome, bastante idoso, que tentou explicar de que meu pai usou o passaporte dele para partir de navio.
Deve ter sido verdade, pois meus parentes buscaram informações nas listas de imigrantes, chegados nos diversos portos brasileiro e em nenhuma delas estava o nome de Francisco Szurek, seu verdadeiro sobrenome. Claro que ao adentrar no Brasil e ir trabalhar na ferraria dos Szczypiór em Contenda, Paraná, deve ter regularizada a sua situação como imigrante, recebendo um documento, chamado Modelo 19. Francisco não se naturalizou brasileiro. O primo, acho que era Stanislaw, lamentava aquele fato, pois, sem o passaporte, não conseguiu emigrar à Nova Polônia nas Américas como almejava.
Dissipando aquele pequeno mal estar pela herança que caberia ao meu pai, com a morte da avó Wiktória, depois de saborosos café e almoço, busquei uma forma de continuar viajando, até a cidade de Rzeszów, onde viviam e vivem parentes do sogro, já falecido, Edward Czerwonka. Um dos primos sabia horário de um ônibus até Rzeszów e lá fui eu. Ryszard e Iwona e parentes me receberam com euforia e pernoitei no pequeno mas acolhedor apartamento de um deles. Confraternizamos como dava, com meu polonês sem muitos verbos e substantivos adequados. Tomamos café no dia seguinte, uma segunda-feira, e fui pegar trem para a cidade de Lublin, terra de nascimento de minha sogra Leokadia, que emigrou para o Brasil aos cinco anos.
Não me lembro se achei algum parente dela, mas da cidade tenho uma lembrança bastante interessante, talvez já revelada em alguns dos 200 artigos deste blogue. Era o curioso esquema de vendas de livros nas principais ruas da cidade; pessoas sentadas em cadeiras tendo à sua frente pequenas mesas expondo obras de todo o tipo, claro, em polonês. Descobri que a maioria dos poloneses (não havia um analfabeto no país naqueles tempos comunistas) viajava pelo mundo através de livros. Era comum alguém me perguntar se no Brasil ainda vivíamos como nos tempos descritos da Escrava Isaura e se todos os brasileiros eram de tez escura. E se todos jogávamos futebol, tendo sempre a lembrança do rei Pelé, um nome exaltado por todos.
Fui até Varsóvia pegar avião até Frankfurt e dali para o Brasil. Lembro que essa primeira viagem à terra dos meus ancestrais marcou em mim de modo muito especial. Vi e revi quadros descritos pelo meu pai, a casa onde nasceu, o pequeno riacho ao lado dela e até o poço donde colhiam água, além de um paiol com uma vaca magra mas fornecendo leite para meus parentes. Vi e abracei pessoas, com seus olhares e gestos amorosos, como se estivesse nas casas dos colonos imigrantes em várias cidades do Brasil. Mesmo que tivesse que esperar vinte e quatro horas em Frankfurt, no aeroporto, com dinheiro curto para ficar em hotel.
Prezados leitores que me aguentam até aqui, tenho certeza de que o passado não nos condena mas nos instiga a viver e reviver a bondade existente neste mundo maravilhoso…
